“…Uma vez, era o génio e o louco, separaram-se até mais ver, mas não deixaram de se corresponder. Uma vez, era o choro e o riso, também esses fizeram planos, de nunca mais deixarem de se entender.”
Jorge Palma in “Uma Vez”
Qual é o cúmulo da burrice ou a prova que o ensino e a formação académica em engenharia na hora H não serve de muito?
Duas jovens racharem uma conta de 26 euros de um jantar a meio, e unanimemente concordarem que isso daria 18 euros a cada. Pedir à funcionária do restaurante para pagar 18 euros cada e esta chamar a atenção que isso daria 36 euros e não 26.
Das duas uma, pensamento da funcionária, ou estas duas são mesmo burras, ou então estão a deixar-me uma gorjeta de 10 euros, talvez pela situação actual ou pelo nosso aspecto não tão endinheirado, ela achou que seria a primeira hipótese, seriamos somente um pouco para o “burras”.
A verdade é que quem ganhou com isso foi a funcionária do restaurante, que embora tenha chamado a atenção para a conta mal feita, cobrou 18 euros a uma, e depois 9,5 a outra, ficando assim com 1,5 de gorjeta(sim, agora já tenho a máquina de calcular do PC)! Esperta! Temos que convir que ela sim deveria vir fazer o nosso trabalho de engenheiras e nós, sei lá, devíamos comprar um daqueles livros: “matemática para burros”.
Para a próxima será mais inteligente sacar da mala a minha máquina de calcular de muitos euros, quase do tamanho do meu pc portátil e fazer 26 a dividir por 2 através de uma equação de segundo grau, pondo assim em prática as 7 cadeiras de matemática que tivemos no curso mas que não ajudaram muito nas questões de divisões de contas de jantares.
Ontem ouvia atentamente um programa na TV a falar sobre os benefícios de pertencer à UE, e como os jovens deveriam participar e estarem informados na vida Europeia, porque a taxa de abstenção de jovens nas últimas eleições tinha sido elevada.
Assunto interessante, por isso fui ouvindo o que se dizia, e de repente eis que uma das participantes no debate diz que os jovens tinham que ter noção das coisas boas que a UE lhes tinha trazido, como por exemplo: Bolonha. E eu aí pensei para os meus botões o que ela tinha dito, para mim, como ouvinte, estragou o discurso todo.
Bolonha? Estamos satisfeitos com Bolonha é? Pois, imagino, devem estar todos satisfeitos com Bolonha, todos a não ser eu, que apanhei Bolonha ali bem pelo meio do curso, e de repente, cadeiras com nomes normais e habituais mudaram para nomes completamente diferentes mas que querem dizer exactamente o mesmo. Como por exemplo: Gestão de Resíduos Sólidos passa a Transportes de Mercadorias e Processos Logísticos, mas continua a ser exactamente a mesma coisa!
Mas Bolonha foi uma coisa muito boa que apareceu, Bolonha veio possibilitar que um aluno faça 3 anos numa faculdade, receba logo aí o grau de licenciatura e depois possa ir fazer o grau de mestrado para uma outra faculdade ou até outro país. Que maravilha, excepto aquelas faculdades que inventaram o Mestrado Integrado e não deixam uma pessoa sair de lá antes dos 5, antes disso, não há grau para ninguém, e ir fazer dois anos a outra faculdade, nada disso, é tudo ali.
Por isso, eu, jovem adulta deste País gosto muito da UE, e votei nas eleições, mas não foi por causa de Bolonha, porque eu e Bolonha temos uma relação, como hei-de dizer, um pouco intempestiva, ela chegou, baralhou ainda mais o meu curso, se é que isso ainda era possível e agora faz-me passar os dias na faculdade a resolver problemas pós-bolonha.
E anda uma pessoa armada em Asterix e Obelix nos doze trabalhos, da secretaria da faculdade para a secretaria do departamento, explica num sítio, explica noutro, de um lado mandam-me para outro, preencho papéis, recebo papéis, assino papéis e quando chego a casa tenho um email a dizer que tenho que lá ir de novo para preencher mais papéis, assinar mais papéis.
Entre conversas ilógicas, sem saber se peço equivalência a esta cadeira, se já a fiz, ninguém sabe, porque com os nomes todos diferentes já não se sabe se a cadeira foi feita ou não, nem se sabe bem que cadeira é aquela. Peço desculpa, já não existem cadeiras, só aquelas em nos sentamos nas salas de aula que continuam as mesmas desde há dez anos, mesmo com o aumento das propinas, agora chamam-se unidades curriculares.
Por isso mesmo, no dia hoje, nos dias que correm, não me falem em Bolonha e não me digam que trouxe inúmeras vantagens, que cá para mim, ainda só me trouxe problemas e trabalho a dobrar nos departamentos administrativos da faculdade.
Tenho que contar este episódio que presenciei nas urgências, aliás, eu ando a presenciar muitos episódios nas urgências, porque ando a passar muito tempo nas urgências, nesta casa se não é asma é a dor de dentes, e se não é dor de dentes é dor de garganta, ou melhor ainda é uma mão queimada com água a ferver para o chá (sim, isso já me aconteceu, penso que foi praga de todas aquelas pessoas a quem eu disse que lhes faltava chazinho em pequeninas!)
Eram 4h30 da manhã, nas urgências, mais concretamente naquela salinha fria e sem graça com cadeiras altamente desconfortáveis onde nos sentam à espera que o nosso doente percorra os vários percursos das urgências.
Vários percursos, sim…chegada às urgências, discussão com segurança sobre local onde deixou a viatura, porque que porta entrou e que pé colocou à frente em primeiro lugar (pode não ter cumprido as normas, e aí, pode estar a se desfazer em sangue, mas vai voltar a entrar correctamente), depois a indicação na recepção do problema de saúde que o levou às urgências, depois espera, sala de triagem onde volta a explicar a razão porque o levou às urgências e normalmente é medido a febre, depois espera, depois espera numa sala diferente, depois um médico o recebe por 5 minutos, depois passa na sala onde os médicos e enfermeiros estão em amena cavaqueira e pensa: “Ah…é aqui que eles se escondem”, depois segue para sala de tratamentos onde estão 10 idosos com indícios de pneumonia, e espera, depois muda o turno dos enfermeiros, e espera, depois muda o turno dos médicos, e espera depois de ser confundido 3 vezes com pessoas como o nome diferente, e depois espera pela receita, e depois então, pode seguir…
Continuando na salinha fria, em que devíamos ser uns 5 coitados ali ao frio, numa cadeira de plástico desconfortável enquanto víamos um filme na TVI com aranhas a comer caras de pessoas, esperávamos. Se quiséssemos saber do nosso doente estávamos tramados, porque não estava lá ninguém para nos atender, quer dizer, estava, consegui-a ver ao longe, a conversar com o segurança, mesmo sendo míope e tendo saído de casa sem óculos.
Naquela salinha acolhedora (ironia!) estava uma Senhora, vamos chamá-la Maria, pode ser que a Senhora até se chame Senhora Maria, a sua filha, Pancrácia e o genro, Idalécio, vamos supor. Os três percorriam a sala de um lado ao outro esperando que alguém chegasse para lhes dar notícias do seu familiar.
Finalmente chegou a funcionária e chamou com uma voz estridente: “Familiares do Senhor António Silva”, e nisto a Senhora Maria, a filha Pancrácia e o genro Idalécio correm para a secretária para ouvir notícias do familiar.
- Olhem, o Senhor António Silva vai ficar internado! – Diz a funcionária de forma assertiva.
Nisto a Senhora Maria desfaz-se em lágrimas, e grita aos céus: “Meu Deus! Que desgraça!”, agarrada à filha Pancrácia que tenta acalmar a mãe enquanto o Idalécio com um ar atrapalhado tenta aparar as duas.
- Mas ele só tinha uma dor ligeira na barriga o meu pobre António e já vai ficar aqui para morrer, que desgraça a minha! – Continua a dizer virada para o céu a Senhora Maria.
Nesse momento a funcionária franze o sobrolho e diz:
- Mas diga-me lá Senhora, o seu marido é António Santos Silva ou António Melo Silva?
Entre soluços a Senhora Maria diz:
- António Santos Silva, minha senhora.
- Ah! Então isto não é o seu marido, o seu marido ainda está a espera de ser atendido.
E a Senhora Maria, a filha Pancrácia e o genro Idalécio sentam-se pacientemente nas cadeiras amarelas de plásticos e seguem o filme da TVI sobre aranhas a comer a cara as pessoas.
Moral da História: Não tem moral, mas a verdade é que com tantas idas às urgências e sempre com acontecimentos como estes para presenciar penso que no final do ano edito o livro: “Contos imprevistos nas Urgências do Hospital”.
O que mais gosto no nosso País é a adoração que existe por papéis, importante é papéis, este País acha que irá avançar com papéis, muitos papéis, burocracias, formulários, selos, papéis. Quando é preciso lidar com os meandros do nosso Estado o que me vem à cabeça é um pouco dos doze trabalhos de Asterix (aquele trabalho que têm que percorrer departamentos e guichés) e o sketch dos Gato Fedorento do: “Qual Papel? O Papel! Qual Selo? O selo!
Sortudo do português que não precisa de papéis do estado, mas não sei se existe algum sortudo, porque basta fazer o IRS ou simplesmente um cartão do cidadão para nos depararmos com as burocracias e sairmos espantados com a quantidade de papéis exigidos e normalmente sem lógica nenhuma!
Queremos fazer o IRS, temos um filho de dois anos, pois bem, este precisa de ter um nº de contribuinte, exactamente, nº de contribuinte, aos dois anos qual é o puto que passa sem o cartão de contribuinte, mais dia menos dia começa a ter que mostrar na escola para entrar o cartão do cidadão, onde estará devidamente descrito com que idade largou a fralda e se ainda chucha no dedo.
Mas como um puto de dois anos precisa de cartão de cidadão para fazer que os seus pais façam o IRS lá vai uma mãe com o seu filho tirar umas fotos tipo BI que lhe custam 4 euros, e mais uns quantos papéis, espera 3 horas numa fila para fazer o cartão de cidadão ao seu filho de 2 anos.
Várias semanas depois o cartão fica pronto, várias semanas porque dá muito trabalho a fazer um cartão do cidadão, e custa muito dinheiro também, o nosso estado é assim, tudo demora o seu tempo e tudo custa dinheiro. No dia em que o cartão fica pronto lá vai uma mãe dar uma corrida à Loja do Cidadão, no intervalo de almoço do trabalho, sim, porque uma pessoa trabalha, e depois do trabalho tem que ir buscar os filhos à escola, espera mais umas horas na fila e quando chega à sua vez de levantar o cartão de cidadão do seu filho de dois anos respondem: “Não lhe posso dar este cartão, tem que estar presente o titular!”
Neste momento um cidadão português, e principalmente uma mãe, já não sabe se ri ou se chora, explica que o cartão do cidadão é de uma criança de 2 anos, que está na escola e que é mais fácil se deslocar à Loja do Cidadão sem a criança ao colo. Mas nada! Sem o Titular do cartão não há cartão para ninguém!
E lá vai uma mãe, sai do trabalho, passa na escola do puto, mete o puto no carro, para o carro no parquímetro que custa 1 euro durante 5 minutos, leva o puto para frente das fuças da senhora do cartão do cidadão, e aí, e só aí, quando o puto de dois anos estiver em frente á funcionária é que lhe será entregue o cartão do cidadão, que ele alegremente enfia na boca, lambuzando um pouco.
E lá vai uma mãe descansada para casa, porque o seu filho de dois anos já tem um cartão de cidadão em mão e ainda bem porque para o ano, para uma criança de dois anos ter um cartão de cidadão será requerido a última fralda usada, recibo da última ida ao pediatra, primeiro brinquedo que meteu na boca, amostra do gel de banho que usa e registo gravado em CD, ficheiro wva da primeira palavra que disse.
Mais uma menos como para ter direito ao sistema de saúde do cônjuge, papéis a entregar: BI, contribuinte, último registo do IRS mesmo que ainda não o tenham feito, primeira foto tirada juntos, testemunho de 3 amigos a provar que aqueles dois entes estão mesmo casados, amostra da saliva presente no primeiro beijo, registo em CD em formato wva da primeira discussão e provas de que forma feitas as pazes, marca branca do uso da aliança durante a época balnear e registo de uma refeição durante a lua de mel.
E aí e só aí, talvez seja possível o estado português dar algum avanço ao processo, isto se não for quinta-feira depois das 15h, porque depois já vem a sexta e já mete o fim de semana e já não dá tempo, se não for a hora do café matinal, entre as 10h e as 11h30, ou o café da tarde, 14h30 às 16h, ou então terá que ser antes das 12h, porque depois disso já se mete o almoço ou antes das 16h30 porque aí já é hora de arrumar a mala, perguntar às colegas o plano nas próximas horas e picar o ponto que a hora de saída é às 17h.
Estamos nos tempos modernos, onde se fala de tudo, se opina sobre tudo. Mas será que a evolução não está em respeitarmos qualquer opinião, qualquer pensamento, qualquer opção de vida. Será que ao queremos modernizar e aceitar novos costumes, novas ideias, outras condições de vida, que foram aparecendo ao longo dos nossos tempos, ou saindo debaixo do tapete, caímos no erro de julgar e criticar as anteriores?
Como uma espécie de vingança pelos nossos antepassados que crucificaram, criticaram certos comportamentos ou decisões de vida, e uma sede de modernização, que caímos no exagero que não estar a aceitar tudo e todos, mas sim a variar comportamentos e costumes.
Nos dias de hoje, ao contrário do que se passava antigamente, começou a aceitar-se e respeitar-se o divórcio, as uniões de facto, o “viver junto”, as mães solteiras ou mesmo a promiscuidade. Alguns exemplos de situações de sempre existiram, algumas talvez camufladas e vividas às escondidas, mas hoje em dia tudo isto é aceitado, e ainda bem, ninguém deve ser julgado ou criticado em praça público pela vida de quem ou as opções de tomou.
Cada um sabe de si parece finalmente estar na ordem do dia, e ainda bem, porque realmente não devemos julgar os outros, aliás, porque nunca sabemos o que nos pode acontecer, e situações como as mencionadas acima devem ser encaradas com respeito, e sem julgamentos de valores.
Mas numa altura em que todas as situações em que mencionei em cima começam a ser aceites, não passados do 8 ao 88 e quem faz diferente é que começa a ser olhado de lado? Como se não pertencesse ao grupo, como se ao ter um comportamento diferente estivesse de certa maneira a não aderir à modernização.
Por exemplo, hoje em dia, quando uma pessoa fala de casamento, pergunta a alguém se está a pensar em casar, ou anuncia que vai casar umas as respostas mais comuns são: “Casar? Deus me livre!”, “Casar? Para quê?”, “Vais casar!? Não faças isso! Vais estragar a tua vida, já viste as taxas de divórcio?”, etc…E com isso estaríamos a ser engraçadinhos, espirituosos, cheios de sentido de humor.
Mas se pelo contrário alguém se dirigir a nós anunciado um divórcio e as nossas respostas forem semelhantes, ou seja: “Divórcio? Deus me livre”, “Divórcio? Para quê? Para depois encontrar um igual ou pior”, “Divórcio? Não faças isso! Vais estragar a tua vida, já pensaste nas consequências?”, estaríamos a julgar o próximo, a ser retrógrados, divórcio hoje em dia é uma coisa normal e com essas perguntas e comentários estariamos a desrespeitar a pessoa em questão e com um pouco de azar ainda seria chamado de fascista, conservador de direita.
O que nos faz concluir que, passamos de um extremo para o outro, será que é preciso este processo para passarmos a aceitar as circunstâncias e opções de vida, como elas são? Não teremos daqui a uns anos os casados ou noivos a reclamar que não são respeitados por querem casar? Não devemos julgar quem recorreu ao divórcio, mas podemos julgar quem se vai casar? Não me parece…viva a liberdade minha gente, cada um faz o que quer.
Será que não estamos ou vamos chegar ao cúmulo de quem estar casado, e ainda por cima, olhem o desplante, ser feliz, estar a ser julgado ou considerado menos moderno, sujeito a comentários do alheio como: “Só se casou pela festa!”. Porque não morar junto? Isso é que importa, dizem as pessoas, o casamento é só um papel.
Não estaremos assim a fechar a nossa mente em vez de abri-la? O importante não é aceitar tudo e todos, em vez disso, mudamos simplesmente os costumes e hábitos, passamos do casamento ao morar junto, ou o melhor é passamos a respeitar as duas opções? E cada um sabe de sim, e importa é o que cada um acredita e que com isso seja feliz.
Para finalizar, estou no clube das casadas, com papel passado, por opção e por seguir aquilo que acredito. Não sou "maluquinha", não sou retrógrada por não ter querido “morar junto”, acho que quem rotula na minha presença casamento como “ir para a forca” ou “uma asneira” está a precisar de se resolver para saber aceitar o próximo e quem sabe a sim próprio, quem acha que só se casa quando aparece uma gravidez indesejada está a viver no século passado, e quem questiona as razões pela qual uma cerimónia religiosa faz sentido tem mente fechada.
Evolução…aceitar o mundo assim como ele, e não julgar, porque julgar é andar para trás e fechar a mente, e não é preciso contrariar o que já existe para ser aceite o novo, é preciso é aceitar tudo e todos.
Este fim-de-semana que passou alguém me dizia que não valia a pena separar o lixo, que essas políticas ambientais não tinham resultados nenhum, porque o mais provável era as pessoas terem o trabalho de separar e depois “eles” juntavam tudo. Discordei, claro…
Concordo tanto com as políticas ambientais referentes aos resíduos, como acho que a política dos 3R’s devia ser implementada em tudo na nossa vida. Então não seria perfeito se pudéssemos, com tudo na vida, reduzir, reutilizar ou reciclar?
Vamos alargar a política dos 3R’s para tudo na nossa vida, vamos recolher nas nossas vidas tudo o que seja resíduo, já não estou a chamar lixo o que neste caso ofende muito menos as susceptibilidades.
Vamos pegar em tudo o que não nos faz falta, o que está a estorvar lá por casa, não tem utilidade, está gasto, ou seja, só atrapalha. Vamos recolher nas nossas vidas e no nosso espaço as mágoas, os ressentimentos, as faltas de respeito, os abusos de poder. Já que estamos com a mão na massa, vamos pegar também em tudo o que os outros atiram para o nosso espaço, ou seja, os resíduos dos outros, que vêm despejar à nossa porta para assim se livrarem deles, vamos fazer uma recolha interior das más resoluções, problemas pessoais, amarguras, invejas, ciúmes, constrangimentos alheios.
A tudo isto vamos aplicar a política dos 3R’s, primeiro vamos reduzir, vamos parar de acumular lá por casa tantos ressentimentos, mágoas, más resoluções pessoas, amarguras, invejas e tudo o mais que faz mal à alma. O que não conseguirmos reduzir vamos tentar reutilizar, vamos aprender com as mágoas, ciúmes, constrangimentos alheios e vamos dar outra utilidade a esses acontecimentos. Por último, o que ainda sobrar, podemos sempre reciclar, transformar em algo parecido mas de certo modo diferente, transformar um sentimento mau num bom, continua a ser um sentimento, mas está reciclado.
Para quem achava que a política dos 3R’s não podia mudar o mundo não a explorou ao máximo, podemos aplicar regras como estas em tudo na vida, e pode ser que assim, os resíduos da nossa vida sejam reduzidos, reutilizados ou até reciclados, e o mundo…o nosso mundo…esse poderá ser muito mais ecológico.
- Não, não está. Aqui não existe nenhuma Alexandra Pimentel, deve ser engano.
- Não é a Senhora Alexandra Pimentel? Então com quem estou a falar?
- E isso é relevante para…? Tudo bem, está a falar com a Joana.
- Com certeza, Senhora Joana Pimentel?
- Não, não existe relação nenhuma relação com a Senhora Alexandra Pimentel.
- Com certeza, tinha um produto para apresentar, mas posso lhe apresentar a si na mesma.
- Aí pode? Mas não queria falar com a Senhora Alexandra Pimentel?
- Sim, mas como é da mesma zona, posso lhe apresentar a si.
- Da mesma zona? Mas como sabe a minha zona?
- Está em Aljustrel, não está?
- Não, estou na Ilha da Madeira.
- Ah! Com certeza, não faz mal, mas vou-lhe apresentar os nossos produtos.
- Mas eu não estou em Aljustrel!
- Não faz mal. Deixe-me apresentar os produtos da…
Confesso que esta técnica de Marketing me deixa altamente intrigada, porque não acredito que resulte com quem quer que seja, mas uma coisa garanto aqui, comigo tem o efeito contrário! Quanto mais me telefonam, quanto mais me incomodam, quando mais insistem mais eu não posso ouvir falar “deles”!
Quem é que espalhou por aí que telefonar às pessoas insistentemente apresentando produtos pelo telefone, enquanto a pessoa está a fazer o jantar, ver uma série na televisão, actualizar os seus emails ou mesmo dar banho ao cão vai ter algum futuro.
Será mau feitio meu ou falta de paciência mas vozes melosas, politicamente correctas a me impingirem produtos pelo telefone fazendo-me querer que o que tenho é insuficiente ou ridículo são altamente irritantes!
Se a maioria dos telefonemas que recebo a vender produtos são absurdos, principalmente quando me falam para casa a perguntar pelo meu avô, que Deus o tenha, o que lhe deve interessar menos lá em cima é falar com um senhor de um Banco, este foi de todos o pior!
Ainda há dias alguém dizia que para alguns as portas abrem-se mais facilmente. Obviamente que percebo a que portas se estavam a referir, mas para mim as portas da vida passaram a ser muito mais variadas e de abertura muito mais complexa.
Na vida deparamo-nos com portas tão diversas, portas de vidro em que vemos tudo lá para dentro e não sabemos se devemos bater para entrar porque já nos estão a ver e podem não querer abrir e depois vamos ter que lidar com isso. Portas de metal, daquelas que não conseguimos nem bater e se não tiver uma campainha será difícil para pedir para entrar. Portas de madeira daquelas que basta bater, trux trux trux e pode ser que venha alguém abrir.
Enfrentamos tantas portas na nossa vida, portas de discoteca, daquelas que tocamos a uma campainha, abre-se uma escotilha e do lado de dentro espreita um “macaco” com dois metros para observar o nosso ar para depois decidir se nos abre a porta ou não, ou melhor, se nos cobra entrada ou não. Portas de prédios, que temos que tocas na campainha e de lá de cima alguém diz “Quem é?!” e temos que pensar quem somos, quem queríamos ser, o que conseguiremos ser para dar essa resposta tão simples, mas ao mesmo tempo tão profunda.
Portas como num sallon, que nos vêm os pés e um pouco das pernas, que antes dos 25 e quando ainda andamos no ginásio é sempre bom e estamos a dar uma boa impressão, mas quando já não frequentamos um ginásio já não é a imagem mais animadora que podemos ter antes de entrar num local.
Nota: Fiquei sem ideias para portas, abri a janela de Messenger do Joselino e disse: “Diz-me tipo de portas” e ele respondeu: “Há o Paulo”. Tenho que me relacionar com pessoas mais normais e não tão cúcús como eu!
Mas para quem não elabora tanto como eu estou aqui a fazer, uma porta é uma porta, e há muitas portas na nossa vida, umas fecham-se e para quem não é preguiçoso e é empreendedor pode sempre procurar uma janela. Portas que se abrem porque sim e outras porque não. Portas que se abrem porque escancaradas outras que ficam só entreabertas. Mas as pessoas muito insistem que “alguns” de nós têm as portas que querem abertas e até nos convidam para entrar.
Fui pensar nesse assunto, será que quando eu quero as portas abrem-se realmente, qualquer que seja a porta, seja que há coisas que me rodeiam e que são próximas que me permite ter portas abertas assim a torto e direito?
Enquanto pensava nisso passeava-me num centro comercial e de repente, perante uma porta de vidro e só de estar parada em frente a ela, olhando para a porta com um ar indiferente ela abriu-se! Tive dúvidas, afastei-me e voltei a aproximar-me, e voilá! Ela voltou-se a abrir! Dei três passos para o lado e depois voltei a pôr-me em frente dela e qual o meu espanto, abriu-se outra vez!
Já percebi, e é mesmo verdade! Há portas que se abrem assim para algumas pessoas, basta nos aproximarmos da porta e nem é preciso esperar, pouco tempo depois ela está aberta! E podemos passar! Fantástico! As portas abrem-se para mim com imensa facilidade, principalmente aquela do Centro Comercial!
“O Mundo dos Crescidos é muito feio e assustador, tem coisas muito estranhas” já me dizia a Zulinda desde que “entrou” para o Mundo dos Crescidos. Tantas vezes me dizia que não queria viver neste mundo, pessoas a fazerem coisas estranhas umas às outras e a si próprias.
Quando contava à Dr.ª Aureliana histórias de inveja e má resolução do mundo lá fora ela sorria-me, como quem estava a pensar que eu ainda tinha muito que crescer, que ainda tinha ilusões relativamente ao mundo e às pessoas que lá viviam, que ainda queria mudar e consertar o mundo, ou que ainda espera que da noite para o dia ele se tornasse justo.
A Dr.ª Aureliana contou-me um dia que muitas pessoas pelos problemas que tinham consigo mesmas, problemas de auto-estima, insegurança, tinham atitudes estranhas. Contava-me que quando uma amiga dela, com boa aparência física dançava conseguia notar logo aquelas pessoas que estavam bem consigo mesmo, eram aquelas que no fim elogiavam e admiravam todo o talento e atributos físicos da amiga. Uma pessoa quando está segura e bem consigo mesmo não se sente ameaçada por ver alguém bonito, elegante, talentoso ou bem sucedido na vida.
Dizia-me que na vida ainda iria encontrar muitas pessoas que iam julgar os outros só pela aparência ou por outras características fúteis, mas que isso só mostrava mal resolução alheia, mas que felizmente existiam pessoas que só depois de conhecer é que iriam fazer juízos de valor, e que nos dão oportunidade de mostrar o que somos e o que valemos sem estarem de pé atrás e de “avaliação” pré-definida.
Mesmo assim eu continuo a achar, tal como a Zulinda, que o Mundo dos Crescidos é muito feio. Pessoas a passarem por cima de pessoas, a desviarem o seu caminho para competir, julgar os outros. Crescidos a viver como se não tivessem tido tempo de crescer, naquilo que realmente importa! Amadurecer!
Por vezes, o universo que critica o mundo por dar demasiada importância e favorecer a aparência física, o sexo ou as origens é o mesmo que julga, critica e rótula ou outros pelas mesmas características.
Diz-se que a sociedade é injusta porque quando uma pessoa tem boa aparência física, ou mesmo, bons atributos físicos há caminhos que se percorrem mais facilmente, diz-se que a sociedade é injusta porque uma pessoa cujos progenitores ou afins já provaram as suas capacidades e chegaram longe na vida depara-se com portas a se abrirem mais facilmente. Mas não são essas mesmas pessoas que rotulam uma pessoa com boa aparência física como só isso mesmo e mais nada? Que chegaram onde chegaram porque têm atributos físicos? Não são essas as mesmas pessoas que rotulam alguém que chega onde chega porque vem de “boas” famílias?
Não será então incoerente criticar algo quando fazemos mais ou menos o mesmo mas de maneira diferente? Estamos a usar as mesmas bases de julgamento? Criticamos e em troca fazemos igual? Mas isso fará alguma diferença? É assim que queremos tornar o mundo mais justo? Enquanto mandarmos de volta ao Universo o comportamento nocivo que nos rodeia não estamos a contribuir para viver em círculo e não para seguir em frente? Para vivermos num mundo melhor, que evolui?
Eu ainda acredito num mundo melhor, sempre melhor, e já acho que o que temos é muito bom se pararmos o tempo suficiente para percebermos isso. Se há injustiças no mundo, e há muitas, caminhamos para um dia em que elas sejam cada vez menores, ou pelo menos que vão variando ao longo dos anos para não serem sempre as mesmas injustiças.
Se nos mandam uma injustiça para cima que tal não mandarmos uma de volta? Que tal mandarmos um chupa-chupa para esse mundo estranho dos crescidos?
Perguntei à minha mãe se ainda existia na Madeira a “Obra das Mães “na Madeira, pois a minha avó tinha sido presidente entre 1962 e 1974 desta “Obra”. Minha mãe disse que já não existia, que era considerado uma “coisa fascista” e copiou para a “janela” um excerto que explicava o que era a “Obra das Mães”.
“Todos estes centros deram primazia à formação das gerações femininas mais novas, direccionando-as para o seu futuro papel de esposas e boas mães, e incutindo-lhes noções de deveres sociais, boas maneiras, cultura religiosa, economia doméstica, puericultura, tecelagem, corte e confecção, adorno do lar, bordados regionais, jogos e danças.”
Ana Cristina Mendes in “A Intervenção da Obra das Mães pela Educação Nacional na Madeira”
Pois é…
Hoje em dias as gerações femininas mais novas devem estar direccionadas para: roubar marido alheio e viver em união de facto, verem os filhos como um empecilho, têm que ter incutido o dever de sair à noite, dizer palavrões, depreciar todos dos hábitos da igreja mas querer casar lá de branco só pela festa, comprar comida feita cheia de gordura para ter filhos e marido obesos, comprar roupa na Zara, deixar filhos na escola mesmo antes de eles saberem segurar a cabeça sozinhos, jogo do galo e dançar o merengue e o kuduru.
E com esta evolução todas, as jovens gerações continuam a: serem criticadas quando não têm tempo para serem mães perfeitas e estarem presentes em tudo, serem preteridas para empregos porque são mulheres e mais cedo ou mais tarde aparecem grávidas e metem licença, serem olhadas de lado quando aparecem nos eventos sociais sem o marido ou companheiro, serem consideradas promíscuas se são simpáticas, malucas se dançam bem, fúteis se apreciam moda ou assuntos parecidos, desleixadas se a casa não está arrumada, têm pouco que fazer se a casa está bem decorada e as coisas no lugar.
Mudam-se os tempos…
Para melhor? Pior? Tudo na mesma, no fundo! A mulher ainda tem muito caminho a percorrer até ao equilibro!
Mas só sei que a minha Avó, Presidente da “Obra das Mães” foi e ainda é uma mulher culta, inteligente, informada, prendada, boa mãe, cheia de auto-estima e orgulho em si própria excelente esposa e principalmente foi e espero que ainda seja Feliz. Se isso é fascista, eu quero ser assim!
“Inveja é o desejo por atributos, posses, status, habilidades de outra pessoa gerando um sentimento tão grande de egocentrismo que renegue as virtudes alheias, somente acentuando os defeitos. Não é necessariamente associada à um objeto: sua característica mais típica é a comparação desfavorável do status de uma pessoa em relação à outra.
A origem latina da palavra inveja é "invidere" que significa "não ver".
Entretanto, a inveja não é uma característica intrínseca do gênero humano ela é fruto do egoísmo, em uma sociedade concorrencial.”
Zuenir Ventira disse que: “inveja não é você querer o que o outro tem (isso é a cobiça), mas querer que ele não tenha, é essa a grande tragédia do invejoso.”
Muito triste este sentimento de inveja, um pouco assustador até, não temos, nem nos preocupados a pensar porquê é que não temos, o importante é que alguém tem o que nós queremos, e isso não pode ser, o melhor é usarmos toda a energia a divagar, difamar, acusar, amaldiçoar quem tem o que nós queremos. Mas quem disse que para termos aquilo que queremos os outros têm que parar de ter? Claro que não, isso é muito óbvio, mas a inveja, essa maluca, não nos deixa ver isso.
Somos “bichos” tramados nós os humanos, todos sentimos inveja, já tivemos muita, pouca, ela vai variando e passando se formos evoluindo, porque é realmente um sentimento que não nos leva a lado nenhum, acontece porque somos humanos, aparece e devia desaparecer quando usamos os nossos conhecimentos adquiridos e bom senso.
E já senti inveja, acho que é preciso primeiro que tudo admitir, claro que já senti, já tive inveja da mulher mais bonita, mais alta, mais peituda, já tive inveja das mulheres que conseguem fazer tudo bem feito ao mesmo tempo, estudar, trabalhar, serem bonitas, terem filhos, marido, já tive inveja das amigas comprometidas quando estava solteira, a pensar porquê é que eu também não tinha direito ao mesmo que elas, que os outros. Mas sinceramente, e vindo de quem já sentiu inveja, não resulta para nada, não melhora nada.
Não recebemos o que queremos na vida porque os outros têm? Se os outros deixarem de ter, vai passar para nós, porquê? Como a vida é muito injusta o mais provável é passar para alguém que não merece também. Será que não há neste mundo espaço para todos, lugar para todos, o tempo para cada um? E será que não somos responsáveis por aquilo que atraímos, será tudo decidido pelo destino? Esse malvado que dá tudo aos outros e nada a nós?
As pessoas fascinam-me, sempre disse isso e vou continuar a dizer e a inveja é realmente fascinante com todas as suas formas de vir ao de cima. Há quem enalteça o facto de ter chegado longe com muito trabalho e que assim é que é mas depois está chateado com quem lá chegou sem trabalho, mas se o trabalho é que dá dignidade interior porque nos importar com os outros?
Conseguimos entregar o nosso poder com tanta facilidade aos outros, o que pode parecer muito mais fácil, se os outros forem os culpados das nossas infelicidades e frustrações, eles serão responsáveis, nós somos vítimas, mas também para algo mudar, visto que a culpa é dos outros, da sociedade, do mundo também estas entidades é que passam a ser responsáveis por nos trazer a felicidade de volta. Todo este processo exige que um dia os outros, a sociedade, o mundo mude e que nos dê aquilo que merecemos.
Processo difícil este, e se os outros, a sociedade, o mundo nunca mudar? Vamos ser infelizes para o resto da vida, mas também não é por culpa nossa, não é? E se pensarmos que tudo o que nos acontece é um reflexo de nós, dos nossos comportamentos, da nossa personalidade, do nosso trabalho, talvez, mas só talvez, se fizermos algo diferente podemos conseguir algo para nós sem que mais ninguém seja responsável, e podemos tirar ou não o nosso bem estar, porquê? Porque depende de nós, e não dos outros, de quem tem mais, menos, o que nos queríamos.
Querem mais da vida, vão buscar. Quem chega longe, conquista o que quer e precisa não precisa de estar a pedir desculpa por lá ter chegado porque outros não conseguiram. Ainda alguém acha que os outros é que nos tiram o tapete debaixo dos pés? Que aqueles que são bem sucedidos é que são os responsáveis por não sermos felizes? Inveja…isso é para quem não pensa mais de cinco minutos sobre a vida…
Alguém uma vez disse que o meu melhor amigo de uma mulher eram os diamantes, isso já está um pouco desactualizado, primeiro porque estamos em crise, não há dinheiro para diamantes, depois porque vamos usá-los onde? As festas da moda agora são raves, festivais de música ou nesta terra arraias é que estão sempre na moda, e para essas coisas só quem leva diamantes, ou imitações é quem não se sabe “arranjar”. Se levarmos diamantes para a rua corremos o grave risco de sermos assaltadas, e ainda ficarmos sem o telemóvel, e esse sim faz muita falta porque estão lá os números importantes e datas dos aniversários.
Quando os diamantes eram os melhores amigos das mulheres, eram normalmente oferecidos por homens, e os homens já não são o que eram, se não nos trocarem por outra mais nova e mais oca já estamos cheios de sorte, e da minha experiência de vida, e exemplo que faço sempre questão de mencionar, cresci com uma espécie de homem em casa que já não se fabrica, integridade, valores, companheirismo, lealdade, fidelidade, são características pouco usadas, mas oferecer diamantes, isso nunca vi, por isso era mesmo pedir demais.
Visto que já ficou claro que os diamantes não são os eleitos do maior grau de amizade na vida de uma mulher, devem estar todas a pensar que é a bimby, mas também não é, algumas pessoas vão discordar comigo, mas como não conheço a bimby, nunca fomos apresentadas, aqui em casa ainda se cozinha da maneira habitual, tipo, panelas, frigideiras, e outros utensílios, também não é a bimby.
Já sei o que estão também a pensar, o melhor amigo de uma mulher é um gay, isso também podia ser, os maridos não têm ciúmes, são sensíveis, práticos, percebem de moda, assuntos culturais, têm noção de cores (sabem o que é azul petróleo e a cor malva). Mas também não me estou a referir a um gay.
Vou desvendar o mistério, o melhor amigo que uma mulher pode ter é um Jorge. E perguntam-me o que é um Jorge, e eu respondo que nem é um comprador de diamantes, nem é uma espécie nova de bimby, nem é gay. Jorge é loiro, peludo, tem quatro patas, é da raça “rafeirus”, cheira mal da boca, mas é lindo na mesma, dorme a maior parte do dia, mas está sempre presente.
Desde a manhã, quando uma mulher acorda, olha para o lado e lá está o Jorge, deitado na almofada do marido, que tem asma, ressonando e fazendo companhia no nosso sono matinal, até à altura das arrumações da casa que o Jorge puxa pelo tapete de um lado enquanto tentámos sacudi-lo, até ao momento que o Jorge pisa o chão que acabámos de passar a esfregona e até nos momentos em que nos queremos estender no sofá e ele está a ocupá-lo todo, o Jorge é o melhor que uma mulher pode pedir.
Não desaparece de ao pé de uma mulher por mais de 5 minutos e quando volta dá sempre uma lambidela, que acredito que faça bem à pele, ou pelo menos gosto de pensar que sim, ouve tudo o que dizemos, podemos conversar com ele horas a fio que olha-nos sempre com um olhar atento, principalmente se estivermos a cozinhar carne. Um Jorge defende-nos dos barulhos na vizinhança estando atento e ladrando, mesmo quando estamos a dormir.
Em conclusão, mulheres, arranjem um Jorge, são de borla, são fiéis, acham que nós somos únicas, estão aí a dar sopa, abandonados pelas ruas, sozinhos em jaulas na protectora dos animais, canis, e outros sítios. Não têm raça, mas também não é preciso, eu já tenho o pedigree todo, compenso a falta que ele tem. Um Jorge foi a melhor coisa que eu arranjei, depois do meu marido, claro, e digo isto sentada no sofá com o portátil no colo e o Jorge com a cabeça encostada ás minhas perna, dormindo que nem um anjinho, que é o que ele é, o meu anjo da guarda.
Mais um blogue, Alguns Apontamentos Recentes. Este blogue incide numa vertente mais "light", pequenos apontamentos sobre acontecimentos, momentos, coisas, pessoas, que me chamaram a atenção.
Se há coisa que não entendo é o pessimismo, disfarçado de desmotivação, ou desmotivação disfarçada de péssimo, ideias negativas, pensamentos para “baixo”, querer mas no fundo não querer. Será que se tudo em nós é gerido por pessimismo, más energias, frases de descrença e desmotivação conseguimos realmente o que queremos?
O que mais fazemos na vida é nos queixamos, de não receber o que merecemos, que quem não faz tem e nós que fazemos tanto ninguém nos dá valor, que uns conseguem por isto e por aquilo, e nós não conseguimos por causa daquele e daquele outro. Recebemos aquilo que merecemos? Conseguimos aquilo que merecemos por nos estarmos sempre a queixar? Temos que lutar por aquilo que queremos?
A vida pode ser injusta, as escalas de merecimento podem estar um pouco baralhadas de vez em quando, mas o que nos faz pensar que nos andarmos a queixar e a arranjar desculpas relacionadas com o exterior nos vão trazes mais para a nossa vida? Quem está a ouvir essas queixas? Que a promoção deveria ter sido nossa e não da colega do lado, que eu gostava mais dele do que a jeitosa com quem ele casou, que ninguém dá valor ao meu trabalho, aos meus esforços, à minha dedicação, etc.
Se o que mandamos cá para fora reflecte-se no que recebemos, mandar cá para fora queixas e pessimismos não irá atrair algo ainda pior? Se queremos realmente alguma coisa não devemos lutar por ela, independente de quanto o mundo é injusto? Já sabemos que o mundo é injusto, que às vezes é mesmo assim, mas não poderemos sempre ultrapassar as contrariedades da vida, aceitar o que ela nos dá e olhar para todos os caminhos com um pouco de optimismo?
Frases como “Não vale a pena”, “Já sei que não vai resultar”, “Já tentei uma vez e não deu, porque haveria de ser diferente”, “Para quê? Não se pode fazer nada”, etc. dão-me avolta ao estômago, ao meu estômago de pessoa que ainda acredita, que utopicamente ou não, infantilmente ou não, acredita que vale sempre a pena, que pode sempre vir a resultar, que às vezes é precisar tentar várias vezes, de maneira diferente, que se pode sempre fazer alguma coisa.
O que estaríamos cá a fazer se fosse para realizar-mos tarefas sem empenho? Sem motivação? Não acreditássemos na vida, nas pessoas, no mundo? Que sentido faria caminhar sem procurar a luz? Viver a vida sem esforço? Ficarmos quietos no nosso canto à espera de que nos caia no colo o que merecemos, o que precisamos, o que queremos? Passividade e inoperância resulta em algum aspecto?
Se queremos mesmo alguma coisa, se acreditamos, se realmente merecemos, não será melhor ir à luta, não pensar no que pode acontecer, não ter medo de falhar, o que tem de mal falhar? E falhar com preparação de pessimismo e sem preparação faz alguma diferença? Mas falhar e pensar pelo menos dei tudo por tudo não sabe melhor?
Crise, crise e mais crise, ligamos a televisão e fala-se na crise, abrimos as revistas e fala-se da crise, ouve-se o rádio no carro e estão a falar na crise, abrimos um jornal e qual o nosso espanto, tudo sobre a crise, mas o que é realmente esta crise que tanto falam?
Crise financeira, crise no país, no mundo, em todo o lado? Crise nos empregos, ou melhor, na falta de empregos, ou será mesmo uma grande crise social? Só o facto de não sabermos bem o que é esta crise já devia ser sinal de uma crise. Se forem perguntar aí na rua que crise é esta tenho a certeza que ouviríamos muitos prontos e portantos, mas uma resposta concreta, desconfio que não.
Mas lá que é uma crise que não sabemos bem o que é mas que chega a toda a gente é verdade. Às crianças porque o ensino está o que se vê, aos adolescentes porque basta ver os morangos para perceber porquê, aos quase adultos porque não têm emprego e quanto mais estudaram menos probabilidade têm de ter emprego, aos adultos porque não tem dinheiro e tem filhos, por isso têm problema a dobrar, aos velhotes porque não se podem reformar, têm que ir cansados e arruinados de uma vida de trabalho todo o dia aturar os mais novos e os computadores. Ou seja, não sabemos bem de onde vem para onde vai e no que consiste mas que me cheira a crise, cheira.
Mas o que se ouve mais falar nesta crise é de dinheiro, falta de dinheiro, necessidade de mais dinheiro, saber onde arranjar dinheiro, não ter dinheiro, precisar de dinheiro, dinheiro, dinheiro.
Por estarmos em tempo de crise pensei que ir ao supermercado ao sábado era uma decisão inteligente, comprar umas coisinhas, olhando para as promoções, para o leve 3 pague 2, ou mais recente, desconto de 50% no cartão, aquele cartão que o obriga a vir gastar esses 50% aqui, mas não, não foi de todo uma decisão inteligente, porque se há crise, não sei onde ela anda, mas ali não era.
Caixotes cheios de brinquedos com preços exorbitantes, cheios de pais, mães, avós de bengala, crianças birrentas, tias gordas, madrinhas empenhadas, tudo remexendo nos caixotes, amontoando carrinhos com barbies, action man, carrinhos, nenucos e tudo o mais que podiam. Ainda tentei expreitar para um dos caixotes mas fui logo abalroada pela multidão. Filhos berravam pedindo aos pais mais isto e aquilo, pais cedendo a todos os caprichos.
No meio do barulho dos caixotes a serem remexidos e caixas registadoras a passar produtos ouvia um pai a dizer a um filho “Já tens 5 desses em casa, queres mais um? Está bem, tráz lá!”, um filho que perguntava ao pai com uma imitação de um computador portátil na mão do homem aranha, “Pai, isto é um magalhães? É só 48€, podemos levar?”.
Neste momento chegavam funcionárias do supermercado com carrinhos cheios de mais brinquedos, pais empurravam-se para conseguir o brinquedo melhor e mais barato, sempre a pensar que dali vai 50% para o cartão, por isso não há crise, porque vai 50% para o cartão, vamos encher estas crianças de brinquedos.
Uma mãe de cabelos pintados de várias cores, unha arranjada e roupa da moda levava pelo braço o filho birrento que queria mais um brinquedo, só mais um, enquanto isso a mãe berrava para o pai da criança do outro lado do caixote “vais ir mais ela por isso tudo no carro e vem cá para levares mais!” e eu aí pensei, crise! Mas alguém me explica no que consiste realmente esta crise?
Quantas vezes na nossa vida damos as coisas que temos como garantidas? Pensamos que se estão debaixo do nosso olhar, visíveis e presentes na maior parte do tempo são nossas e serão nossas para sempre. Coisas, pessoas, estatutos, tudo o que de certa maneira pertence à nossa vida e faz de nós quem somos, podemos perder a qualquer momento, e às vezes fazemos por isso.
Se não estimarmos as coisas que temos podem-se partir, seremroubadas, estragar-se com a falta de uso, com a idade, com a falta de cuidado, o mesmo não acontecerá com as pessoas que nos rodeiam? Não querendo comparar pessoas a coisas, mas já comparando, se não estimarmos as pessoas que nos rodeiam, tivermos cuidado com elas, elas não se estragam, mas podem partir, partir para sempre…
Tomamos as coisas como garantidas? Com quase tudo na vida, quando chegamos onde queremos achamos que já podemos descansar e simplesmente gozar as regalias? Fazemos o mesmo com a felicidade? Quando conseguimos atingir algum objectivo que nos trouxe um pouco de felicidade relaxamos, paramos de batalhar e acabamos por perder esse gostinho de felicidade por preguiça?
Nós, seres humanos, somos realmente movidos pelo desafio, por aquilo que não temos mas queríamos ter, pelo desconhecido, pelo que nos dá luta e quando finalmente conquistamos aquilo porque tanto batalhamos encostamo-nos à sombra da bananeira até voltarmos a perder e começar tudo de novo? Vivemos a vida em círculos? Ter, não ter, ter, não ter?
Fases animadores e fases de desmotivação, intercaladas entre si, bater no fundo para dar impulso com os pés, mas quando chegamos cá acima cansamo-nos de nadar e voltar a afundar? A vida não passa de um caminho cheio de altos e baixos, encontros e desencontros?
Tudo isto é lógico, ou simplesmente não sabemos o que queremos, então andamos nesta instabilidade de “quereres”. Só sabemos dar valor ao que não temos? Ao que perdemos? Só estamos bem onde não estamos como dizia António Variações? Mas se é assim, será que chegamos alguma vez a apreciar realmente o que temos ou só vivemos de sonhos? E não seria tão bom fazermos o melhor que conseguirmos com aquilo que temos? Será conformista ou realista?
Eu adoro o meu marido, nós todas adoramos os nossos maridos, aliás todas as mulheres que casaram para adorar os seus maridos porque isto hoje em dia nunca se sabe. Mas, muito bem, nós a grande maioria que adora os nossos maridos, fizemos votos de amá-los e respeitá-los na saúde e na doença, na pobreza e na riqueza, tudo bem, mas fizemos votos de “aturá-los” as 24 horas do dia?
Imaginemos que por obra do destino temos que passar os dias em casa ou a fazer as nossas voltas sempre com o marido atrás, isso não estava incluído no rito do matrimónio, e ainda bem, porque muitas pessoas iriam pensar duas vezes.
O que é um convívio matrimonial de 24 horas por dia, quer dizer que acordamos com um ser sedento de programa para aquele dia, e nós a pensarmos em pôr a leitura em dia, fazer umas compras, despachar uns recados, nada disso, eles querem ir ao ginásio a meio do dia, passar horas nas lojas de bricolage e muito mais.
Homem em casa, com muito tempo livre, só consegue, desarrumar, sujar, mudar tudo de sítio ou de cor. Nestes últimos tempos o meu muro já passou de branco a vermelho sangue.
É nestes momentos que acho que Deus olha cá para baixo e diverte-se com esta interacção entre homem e mulher e pensa como foi giro criar estes dois seres tão diferentes e pô-los a viver juntos.
Sempre que arrumo ele vem atrás e desarruma, a casa ficou cheia de chávenas de café, papéis de rebuçados, material de bricolage, mas nem por isso tenho a minha prateleira para pôr os produtos de cabelo pendurada no duche. No meio da sala encontro um martelo, na casa de banho um atarraxador, na cozinha, Meu Deus, a cozinha, tem embalagens vazias colocadas nos armários e no frigorífico.
Se querem testar o casamento, eu sei como, os dois em casa durante uns meses, a fazer tudo em conjunto, mas mesmo tudo. Depois de repetir vinte vezes para tentar ajudar a arrumar a casa e não desarrumar, pôr a loiça suja debaixo de água para depois ser mais fácil de lavar, tentar passar um paninho no fogão cada vez que derrama lá café, dobrar a roupa e pôr nos sítios certos em vez de amontoá-la no armário, pedir que recolha os papéis de rebuçados porque o cão mete-os na boca e pode fazer-lhe mal e levar sempre com a mesma cara de: “Que chata…” e mesmo assim conseguir continuar a gostar muito dele, isto até pode ser que dure…
Hoje dizia minha cara metade que ia voltar brevemente a trabalhar e coitadinha da sua lindinha já não ia ter companhia em casa, e eu sorri para dentro e imaginei-me a ler o meu livro, sem o barulho da máquina de cortar relva, os papéis de rebuçados por todo o lado, uma manta nas pernas e ouvir horas depois…”Amor…cheguei”, e o meu sorriso foi ainda maior, mas sim, o meu querido marido vai-me fazer muita falta todo o dia em casa.
Tenho seguido atentamente as notícias nestes dias que sucedem o regresso às aulas. Primeiro porque gosto de matar saudades da altura em que eu também regressava às aulas e depois porque gosto sempre de ver o estado do nosso país em mais este aspecto.
Fiquei muito surpreendida por ver que algures por Portugal um grupo de pais fechou uma escola por falta de papel higiénico. Realmente inadmissível, isso é um problema gravíssimo, eu diria até um problema maioritário no estado da educação do nosso Portugal.
Os pais devem estar a pensar (eu não, porque ainda não sou mãe, e pelas coisas que vejo ainda tenho que ponderar muito trazer um filho a este mundo) já não basta mandar um filho para um estabelecimento onde os mandam sentar e estar calados, e tipo, ouvir um professor, ser humano que andou a estudar e passa horas a preparar aulas em casa, é realmente inadmissível. Mas para piorar isto tudo, quando um menino tem que ir à casa de banho, que nos dias que correm é duas vezes por aula, e aos pares (sim, eu vejo os “Morangos” e agora é assim) chegam lá e falta o papel higiénico.
Umas noites atrás tive cá a jantar duas antigas colegas minhas de Liceu, e perguntei-lhes se quando lá andávamos as casas de banho tinham papel higiénico, e depois de pensar muito, as três, porque ainda somos do tempo que íamos à escola aprender a pensar e não pensavam por nós, e chegámos à conclusão que mau cheiro as casas de banho tinham, pessoal a fumar coisas estranhas, também, mas papel realmente não. E deve ter sido isso que falhou à grande na nossa educação.
Telefonei para a minha mãe e queixei-me, eu nunca tinha tido papel higiénico na escola e ela nunca tinha ido lá tentar fechar a escola a correntes, não entendo, aliás, devia ter feito, porque nem eu tinha aulas nem ela, que leccionava naquela escola, e não tinha que aturar meninos chatos. Disse aos meus pais que estava muito decepcionada com eles, porque além de não termos papel higiénico um sabonete com cheiro a morango para lavar as mãos também não fazia mal nenhum, nem umas toalhas turcas para enxugar as mãozinhas.
Não me entendam mal, eu acho muito importante o uso de papel higiénico, e acho que deveria existir em todo o sítio, acho fantástico é a importância que se dá a isso quanto tudo parece estar a funcionar tão mal. Compreendo que para os pais deste nosso Portugal ainda não tenham percebido que os filhos andam a estudar e quando acabarem os cinco anos de licenciatura provavelmente não terão emprego, ou então irão trabalhar a recibos verdes, pular de emprego em emprego em estágios profissionais e serem explorados ao máximo, mas papel higiénico, epá! Isso tem que haver!
Eu acho que deveriam se preocupar bastante com a falta de papel, principalmente porque tenho visto os “Morangos” e eles para além de terem papel higiénico à descrição, têm uma rádio na escola, um menino a morar na rotunda do Marquês de Pombal, uma professora que dá aulas de chapéu e uns putos bacanos que dão altas respostas aos professores, mas melhor que isso eles dizem “metrix” que é o novo palavrão da geração.
A geração antes da minha era a “rasca”, a minha acho que nem teve nome, eu cá acho que era aquela que ainda tinha exames de matemática com grau de dificuldade razoável mas mesmo assim chegou à faculdade e as aulas pareciam chinês, não batiam nos professores, não falavam ao telemóvel no meio das aulas, entrou para a faculdade com esperanças que já que estudámos tanto e vamos nos matar aqui durante cinco anos um dia seremos Sr. Engenheiros e ganharemos um ordenado decente, ou seja, éramos os “papalvos”, porque isto o bom é chamar uns nomes aos professores, ser reivindicativo, dizer mal de tudo, não querer aprender nada porque já sabemos tudo, e mais tarde, depois de vadiar muitos anos, ser pintor, pedreiro ou carpinteiro fazer uns serviços e não passar recibos, qual engenheiro!
Voltei a ler revistas femininas, e digo voltei porque tinha parado por um tempo por não me identificar com os assuntos que estas abordavam. Mas o meu regresso a este tipo de revistas deixou-me satisfeita, pude constar que em vez de teorias sobre “como manter acessa a chama da paixão em 10 passos” ou “como agarrá-lo de vez, 5 dicas que nunca falham” os assuntos agora estão mais virados para a mulher independente “solteira e feliz…” ou por exemplo “como organizar a sua vida e ter tempo para si própria”.
E como normalmente quando me dedico a alguma coisa, dedico-me à grande, comprei todas as revistas femininas que existiam na banca. Já que vou voltar a ler, quero lê-las a todas.
Pude verificar que mais de metade das revistas tinham artigos sobre “a mulher solteira”. Como é bom ser solteira, como não nos isolar quando somos solteiras, a mulher solteira dos tempos de hoje, a mulher dedicada ao trabalho e menos dedicada às relações amorosas. Digo desde já que gosto do tema abordado e encontrei artigos muito interessantes. Interessa-me o tema porque já fui solteira e mesmo já não sendo acho que devemos sempre saber como voltar a sê-lo, de um modo saudável, se isso vier a acontecer. E por entre os artigos de como estar solteira encontramos material útil a nos valorizarmos a nós próprias que também é bom quando voltamos a ser comprometidas.
No entanto espantou-me um artigo que depois de muito argumentar como era bom ser solteira, apresentava no final algumas desvantagens de se ser solteira, ou seja, quando é que um homem nos fazia falta. E aí, como solteira que já fui, fiquei estupefacta, segundo o artigo os homens faziam falta para mudar uma lâmpada, acartar sacos de supermercado, levar-nos a jantar, resolver os problemas do carro, etc…
Nesse momento vieram-me as dúvidas, é que quando eu estive solteira, ainda foram uns aninhos, sempre consegui acartar os meus sacos de supermercado sozinha,mudar uma lâmpada? Mas isso tem realmente grande dificuldade, desenrosca, enrosca, e mais nada! Levar-me a jantar? Também sempre soube levar-me muito bem, entre tantos amigos que podia levar para jantar, às vezes era difícil arranjar tempo, mas nunca companhia. E problemas com o carro? Mecânicos existem para alguma coisa, e acho que sempre me trataram melhor por ser mulher, porque queria eu mandar lá um homem?
Resumindo, nesses aspectos apresentados no artigo um homem nunca me fez falta, não foi nenhuma dessas razões que me levou a deixar de ser solteira.
Mas o que esses artigos não expunham é o problema que existe, quando passamos muito tempo solteiras e depois voltamos a ser comprometidas e temos presente nas nossas vidas um homem desejando de fazer essas coisas, vai-se lá saber porquê. Quer dizer, porque alguém os convenceu que só podiam servir para isto.
Para mim foi muito mais complicado deixar um homem acartar os meus sacos, mudar as minhas lâmpadas e mexer no meu carro. Uma pessoa habitua-se mesmo a ser solteira, acho que é mais difícil deixar de ser solteira que deixar de ser comprometida. Passamos a ter pessoas a querer nos arrumar as compras, mudar as lâmpadas e pôr outras com potências diferentes, acham que percebem tudo de carros e estão sempre a dar opiniões na condução e na manutenção, e levar a jantar? Querem escolher restaurantes e pagar conta. Como se estivéssemos a precisar de alguma destas mudanças?
Quando voltei a estar comprometida lembro-me que a frase que mais dizia era: “a sério…isso faz-se assim, é que eu durante estes anos todos nem sei como me safei sem um homem” com um tom bem irónico e de preferência de mão na anca, fica sempre melhor.
Só depois de algumas dicas a me alertarem que os homens gostavam de se sentir prestáveis e úteis, e deixá-los mudar uma lâmpada também não tinha mal nenhum é que comecei a ceder e a voltar a aceitar alguém na minha vida. Ser solteira, custa, mas lá aprendemos como fazer, comprometida também, a mudança é que é lixada…
As poucas vezes que os vi na minha vida achei que eram o melhor casal de todos os tempos, um ar descansado, apaixonado, a aparência de ambos sempre impecável. Sempre achei que tinham feito tudo certo na altura certa e embora fugissem ao convencional do casal da sua época, por terem casado tarde e não terem filhos, pareciam quase “perfeitos”. Talvez fosse mesmo essa falta de convencionalismo que os fizesse tão perfeitos.
Viveram juntos e felizes muitos anos, nem nos últimos anos de vida do Tio, que estava com Alzheimer em alguma vez via a Tia com um ar menos apaixonado, estava sempre dedicada. Nunca vi pessimismo naquelas caras, mesmo quando ele perguntava vezes sem conta pelos irmãos que já tinham morrido e ela respondia aos berros, porque ele estava surdo, sempre da mesma maneira paciente que os irmãos estavam muito bem, um dia iam visitá-los.
Nunca pensei que o mau pudesse ser vivido de uma forma tão optimista A minha Tia ria-se à gargalhada quando contava que dias atrás vinham no elevador com a vizinha e o Tio convidou-a para entrar e ela recusou, e ele respondeu: “Então vá bardamerda…”. Até eu, sempre que me lembro de ouvir essa história rio-me que nem perdida. Genial nos dias de saúde e ainda mais genial nos dias de doença.
Paixão, amor, companheirismo é isso mesmo, aceitar a pessoa que está ao nosso lado como é e acompanhar em todas as fases da vida, sempre com sentido de humor. A minha Tia contava que nos últimos dias da vida do Tio se sentava ao seu lado, ele olhava para ela, com um ar intrigado e dizia que ela era muito gira, e se ela queria casar com ele, ela respondia que já o tinha feito, há muitos anos atrás, ele parava, intrigado e respondia que então tinha sido um homem muito esperto.
Aventura de ontem à noite aqui no bairro em busca da gatinha cinzenta e branca perdida. Tudo começou no mesmo dia de manhã quando ouvi “Oh da casa!” e levantei-me e fui ver o que era (Oh da casa porque não temos campainha, gostamos de viver a vida de uma forma rural, o Oh da casa ainda me soa tão bem). Era a vizinha, a Dona Suzete, mais conhecida como a vizinha dos gatos, porque tem imensos gatos que se passeiam pelas casas todas do bairro. E uma senhora dos gatos mas não daquelas solteiras ou viúvas que vive rodeada de gatos, nada disso, é casada e vive rodeada de gatos que acolhe, completamente diferente.
A Dona Suzete vinha preocupada porque procurava uma gatinha pequenina, cinzenta e branca que tinha recolhido da rua porque tinha um problema num olho, mas quando a tinha metido numa caixa para levar ao veterinário ela tinha-lhe fugido. Prometi procurar a gatinha e se a visse avisar, mas a gatinha não sei onde andou de dia, mas não deu sinal.
De madrugada ouvimos a gatinha a miar por entre os carros parados na rua, fui ter com a Dona Suzete, as duas claramente vestidas com a primeira roupa que encontraram, eu pelo menos sei que estava, as minhas calças de ginásio, top da moda e sapatilhas estavam a matar.
Eu e a Dona Suzete tivemos horas a tentar conquistar a gatinha que fugia de nós a sete pés, conversámos por entre os “vem cá gatinha” e os “bichinha linda, não fazemos mal” sobre gatos, e animais em geral. Ela contou-me como todas as suas inúmeras gatas tinham sido recolhidas da rua, todas com doenças, a Dona Suzete levava-as ao veterinário, e depois de castrar as gatinhas trazia para casa.
“O meu marido diz que já podemos ter mais gatos” dizia a Dona Suzete, pois é, mas grande marido que acolhe esta dedicação e boa vontade da senhora, mesmo reclamando de vez em quando. Estivemos agachadas debaixo dos carros, sentadas no alcatrão, espreitamos pelos muros. Foi uma noite quase em grande, se tivemos conseguido agarrar a gatinha tinha sido perfeita. A gatinha continuou sempre a olhar para nós como se fossemos o bicho papão, mas eu estava satisfeita conosco!
Estava frio, vento e já era mesmo madrugada, e nós ali, estávamos preocupadas e a interpretar todos os comportamentos da gatinha, a tentar ao máximo ajudar, cortava-nos o coração, mas importante é agir. Adoro encontrar pessoas assim, faz-nos pensar que quando crescer, quer dizer, já sou meia crescida, então melhor, nos próximos tempos de crescida quero ser como a Dona Suzete.
O que está a acontecer aos homens de hoje em dia? Já me tinha questionado muitas vezes quanto a isso, mas às vezes deparo-me com coisas que me espantam.
Quando perguntei ao Crício o que tinha falado durante o jantar com o Clarêncio, entre várias conversas ele disse-me que tinham falado dos homens de hoje em dia. O Clarêncio dizia que não entendia a juventude de hoje em dia, que a prioridades estavam todas diferentes. Eu percebo porque é que o Clarêncio diz isso, na sua época, há alguns anos atrás, o sonho de qualquer homem era ser bem sucedido profissionalmente e um homem de família, bom pai entre outras coisas.
Hoje em dia, ainda existem homens assim, aliás, espero que o Crício seja um deles. Mas será que as prioridades não mudaram? E será que essas prioridades são realmente melhores que as de antigamente? Estarão os homens a evoluir ou a regredir?
Ter muitos jogos de computador, jogar muita playstation, sair muito à noite, aguentar bebida mais que os amigos, “meter-se” com meninas dez anos mais novas, parecem-me prioridades relevantes aos 15 anos, mas aqueles homens que as têm aos 30 e mais, serão loucos ou homens normais dos tempos modernos?
Há dias quando conversava com o Heliotero e a Solanita e perguntei-lhes quando se iriam casar, visto namorarem há alguns anos, terem uma relação estável, estarem profissionalmente bem e morarem juntos, responderam-me que estava para breve. Em tom de brincadeira perguntei ao Heliotero quando oferecia à Solanita um anel de noivado, e esta respondeu-me que o Heliotero já lhe tinha dito que lhe daria o anel se em troca lhe desse uma PSP (que segundo percebi era uma playstation portátil).
Eu achei bonito, nada melhor que a Solanita a exibir um anel de noivado e levar a passear o Heliotero enquanto este joga na PSP. Ainda mais espantada fiquei, quando questionava como estavam a se dar na vida a dois, e a Solanita respondeu-me que muito bem, que enquanto preparava uma Tese o Heliotero jogava playstation, que tinha comprado uns “phones” para não incomodá-la. A Solanita, muito bem profissionalmente, deitava-se todos os dias pelas 21h30 para um bom descanso antes do dia de trabalho e enquanto isso, pelas 0h o Heliotero ia à FNAC agarrar as promoções de jogos de Playstation.
Quando perguntei à mãe da Solanita se fazia muita questão que estes se casassem esta disse que não, mas que um neto era bem-vindo. Eu concordo, o Heliotero havia de querer um companheiro para os jogos de playstation.
Original esta vida moderna? Confesso que me sinto velha e retrógrada, porque oiço isto e fico um pouco espantada. Estes são os homens de hoje? Excelentes rapazes, como o Heliotero, com excelentes raparigas como a Solanita, mas será esta a realidade de hoje em dia nas relações dos tempos modernos?
Realmente o Clarêncio tem alguma razão para andar espantado.
Desde o primeiro post neste novo blog que ando a pensar como vou falar de pessoas, aquelas que conheço, com quem tenho diálogos que dariam bons complementos de crónicas sem usar os seus nomes verdadeiros.
Procurei ideias pela internet, a maioria das pessoas usa as iniciais, mas isso a mim parece-me que vai ficar confuso com a minha escrita, tipo: “a F disse ao R que o G não estava habituado que o C fizesse isso”, muito estranho.
Depois recordei a minha infância e descobri a solução, fazer como o meu pai que chamava toda a gente que não sabia quem era, mas queria mencionar, por um nome estranho, peculiar, quer dizer, às vezes grotesco.
Por isso a vizinha do carro verde alface era a Dona Georgete, essa ainda tinha direito sempre ao mesmo nome, mas as restantes senhoras eram Bluetes e Pancrácias. As pessoas que apareciam na televisão e não sabia quem era também não importava, porque lhe tinham oferecido sempre umas meiazinhas e eram muito simpáticas por isso.
Da mesma forma peculiar e simpática que parece que herdei vou passar a chamar no meu novo blog as pessoas por esse tipo de nomes. Se alguém conseguir descobrir o seu nome fictício e não estiver satisfeito com a peculiaridade dele é só avisar.
Desde já peço desculpa às pessoas que tenham mesmo esses nomes na vida real, como peço desculpa em meu nome e do meu pai às Georgetes, Bluetes e Pancrácias.
Vamos supor, assim por breves momentos que existe uma mulher, como tantas outras mas ao mesmo tempo igual a si mesma.
Uma mulher com boa aparência, aliás muito boa aparência porque para além da genética faz todos os possíveis por parecer o seu melhor, para quando se olhar ao espelho gostar do que vê, não só pelos outros, nada disso, parecer o seu melhor para si própria principalmente. Gosta de moda quanto baste, trata da sua imagem consoante a sua idade e estilo de vida, sempre de acordo com o sítio e o que está a fazer.
Uma mulher interessada pelos problemas sociais, pela vida política do nosso país e do mundo. Uma mulher que lê de tudo um pouco, ouve de tudo um pouco, gosta de cinema, televisão.
Uma mulher com hobbies, vários, uns ao ar livre outros no interior. Alguns de Inverno e outros de Verão, alguns até se podem praticar na meia estação.
Agora que temos idealizada esta mulher vamos imaginá-la a dizer: “Não quero ser escrava do trabalho, não necessito de realização profissional para ser feliz, queria ser mãe, mulher, queria ser eu”. Epá…E esta? Não estavam à espera.
Então a mulher não batalhou para ser emancipada, trabalhar, ser mãe e mulher tudo ao mesmo tempo? E não adora vir ao mundo dizer que consegue fazer isso tudo ao mesmo tempo, e que adora fazer estas tarefas todas e ainda ter tempo para si própria. Pois, mas será que isso é realmente viável? Será possível fazer tudo ao mesmo tempo e dar o nosso melhor em cada uma dessas tarefas?
Usar as vinte e quatro horas do dia para: educar uma criança, ensiná-la a distinguir o bem e o mal, a gostar de si própria assim como é, não viver para aquilo que os outros pensam, respeitar o que os outros pensam e sentem, ser educada, realizada, exercitada em todos os sentidos; ser realizada profissionalmente, ter um horário como todos os outros das nove da manhã as nove da noite (sim, muitas pessoas neste país têm este horário depois de anos a tirar um curso superior), cuidar da sua aparência para ser levada a sério, actualizar-se para não ficara para trás, “lutar” contra tudo e todos que querem passar a perna, ser imune às intrigas, coscuvilhices e avanços dos chefes, “trepar” na carreira sem ser à custa dos outros, honestamente, na vertical e no tempo certo; e por fim, manter a chama do casamento acesa, apoiar o marido, ser a companheira de sempre é esperado, saber ouvir, ser forte, gerir uma casa, aturar as sogras, cunhadas, “Família Adams” a nossa e a adquirida, ser interessante a nível sexual, intelectual, dar jantares para os amigos e andar atenta a todas aquelas que tentam “agarrar” o nosso espécime que nos deu tanto trabalho a escolher?
Heroínas aquelas que conseguem fazer isto tudo, se é que elas existem. Mas terá algum problema ou seremos menos mulheres se dissermos: “Eu não consigo! Vou fazer escolhas”. Num mundo que exige tanto das mulheres justificando que se quiseram tornar emancipadas agora que aguentem, como se tivesse alguma coisa a ver.
E se aquela mulher que descrevi no início um dia disser que quer ficar em casa, por a carreira profissional de lado por uns anos, ou simplesmente procurar uma vertente em que ocupe menos tempo ou menos capacidade intelectual. Uma mulher que diga que quer ser mãe, mulher mas ao mesmo tempo cultivar-se, cuidar de si, ser interessada sem ser stressada. Esta mulher não será vista como aquela que não foi capaz? Que voltou ao tempo das nossas avós? Que mais cedo ou mais tarde será desinteressante, inculta e excluída da sociedade das mulheres profissionais?
E se essa mulher, em vez disso, disser que quer ser uma mulher dedicada à sua carreira, estudar, aperfeiçoar-se e dedicar a maior parte do seu tempo ao seu emprego. Que prefere abstrair-se das confusões das relações amorosas e que não tem disponibilidade mental e física para ser mãe. Será que esta mulher mais cedo ou mais tarde não será considerada uma mulher incompleta, uma daquelas que ficou para tia? Não soube prender um homem ou pior, nem deve conseguir engravidar, deve ser traumatizada?
Será que a vida é assim tão curta que não podemos fazer as nossas escolhas, adiar, esperar, gerir o que podemos fazer? É mesmo preciso fazer tudo ao mesmo tempo e arriscarmo-nos a falhar em algum lado?
A sociedade exige muito de nós, e passamos a exigir muito de nós mesmas. E quando falhamos a mesma sociedade não hesita em nos apontar o dedo, por isso não valerá a pena fazer escolhas? E conseguirmos ser mulheres modernas na mesma, porque ao contrário das nossas avós, podemos escolher, mas não temos que fazer tudo.